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Em tempos sonhei ser Manuel Galrinho Bento. Em tempos sonhei ser Vítor Damas, Vítor Baía ou Rui Patrício. Sonhei ganhar asas e ultrapassar os maiores desafios que um relvado pode produzir. Acordei, não tinha asas: pensei no dia seguinte, no amanhã. Para onde caminhamos e para onde vamos, em Portugal. Encontrava-me perdido – como muitos apaixonados pela arte da defesa da baliza. Surgem ideias, novos pensamentos e jovens pensadores – devaneiam-se executantes de decisões de galhardia. Esses, têm o que é para eles garantido e resta-me sorrir quando sonho e rezingar enquanto escrevo de olhos abertos. Só com mais personagens elevadas a maiores do que a vida como Girão conseguiremos lá chegar: são precisos ídolos para que existam mais e melhores guarda-redes (em qualquer das modalidades – falei pelo cheiro da relva, mas sei que algures o Telmo Ferreira pensa o mesmo para o andebol, Edo Bosch para o hóquei ou Raúl Oliveira para o futsal.

Numa posição em que todos os movimentos são escrutinados para julgamento ou proveito adversário, André Girão (foi assim que o comecei a ver jogar no Valongo em 2013, antes de ser Ângelo), mostrou a fibra de que são feitos os ídolos – através do bom exemplo, na base da plenitude da sua capacidade em rendimento, tomando decisões de nervo mesmo em sequência de fadiga). O êxito da defesa de 23 das 24 bolas paradas enfrentadas no Mundial conquistado por Portugal traduzem a racionalidade que tem de ser passada para os que sonham entrar em qualquer uma daquelas balizas do Palau Blaugrana amanhã: respondemos ao que nos apontam, antecipamos sem adivinhar e depois sujeitamo-nos à violência das bolas desenhadas para o golo ou das regras desfavoráveis para a ausência do mesmo (como a grande penalidade, em que a vantagem é toda do atacante e nunca do defensor).

Sempre que André Girão defender uma baliza tem de pensar que não o está a fazer só para ele ou para a sua equipa. Está a fazê-lo por uma geração que crescerá a querer ser um pouco do que ele já viveu aos 29 anos, a mostrar uma alma que ultrapassa a dimensão da baliza e que nos faz entrar novamente na dimensão do sonho – digam-me um guarda-redes que nunca tenha emulado um voo de um guardião do passado, apontem-me um guardião que não seja apaixonado pela arte de assumir a retenção do golo e afirmem que adoravam estar lá, no caminho das bolas na final do Mundial, a fazer corpo grande ao mais sólido esférico e a colocar a máscara onde outros colocam o stick.

Fonte/Foto– Jornal “ A Bola” / Roberto Rivelino

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