VPereiraTreinador

Vítor Manuel Correia Pereira, atualmente com 41 anos, foi durante anos guarda-redes da AD Sanjoanense. Conhecido e acarinhado no clube, depois de “pendurar os patins” iniciou a carreira de treinador, ao leme do seu clube de sempre. Aos 41 e com 24 anos de ligação à AD Sanjoanense Vítor Pereira iniciou esta etapa na ADS há 4 anos e conseguiu levar a sua equipa à manutenção no Campeonato Nacional da 1.ª Divisão, mesmo quando as perspetivas não pareciam as melhores.

Plurisports (PLR): Como correu a temporada da AD Sanjoanense?
Vítor Pereira (VP):Foi uma temporada difícil, um ano de adaptação, pois infelizmente estivemos uma dúzia de anos afastados da primeira divisão. Existiram algumas contrariedades que não esperávamos juntamente com aquelas que prevíamos, devido à adaptação a uma nova realidade. No entanto podemos dizer que a época correu bem porque realizamos o objetivo que trazíamos, superamos as dificuldades desportivas com um plantel modesto mas valoroso que não comprometeu em nada o futuro da modalidade dentro do clube.

PLR: Que contrariedades existiram ao longo deste percurso?
VP: Muitas contrariedades e imprevistos, logo ao chegar deparamos com o ringue em muito mau estado, foi preciso uma intervenção para remediar a situação, o que nos alterou todo o planeamento de pré-epoca, assim como as primeiras 3 jornadas fora, um primeiro jogo em casa sem adaptação…. Tivemos um crise de direção e em final de Outubro ficamos sem presidente de secção, havia compromissos assumidos, foi preciso trabalhar rápido para que isso não afetasse o grupo de trabalho. Depois num período onde pretendíamos reforçar o plantel aconteceu o oposto, ficamos sem jogadores, sem mecânico uns por motivos pessoais e mais tarde outro por motivos de lesão no seu dia-a-dia que o impediu de continuar, muitas contrariedades já para não falar em pequenos imprevistos que surgiram, mas com bom senso e dedicação de todos conseguimos minimizar ou ultrapassar.

PLR: Depois de uma subida emotiva nos penaltis do play-off no ano passado, este ano a ADS conseguiu assegurar a manutenção na última jornada. Qual o sentimento?
VP: O sentimento é de dever cumprido de realização, uma satisfação enorme de trabalhar num clube com os adeptos fantásticos. Temos tido épocas em que tudo se arrasta até ao final, felizmente temos conseguido superar, embora tenham sido desafios difíceis e missões quase impossíveis, a AD Sanjoanense Hóquei no seu todo tem dado resposta positiva. Na época de 2011/12 ficamos perto da subida e perto de uma Final4 da taça de Portugal, em 2012/2013 um 3.º lugar e uma presença como equipa de 2.ª divisão no final da Taça de Portugal, em 2013/14 conseguimos a desejada subida de divisão e fomos afastados da Final4 da Taça de Portugal pelo Benfica, e finalmente 2014/15 conseguimos o objetivo de manter a equipa na primeira divisão numa reta final de campeonato digna de quem sempre acreditou neste trabalho desenvolvido ao longo dos 4 anos. Além desta parte desportiva temos que relembrar o trabalho feito pelas direções e seccionistas que juntamente com as exibições da equipa ciaram condições para termos de novo ambientes únicos, uma media de lotação no pavilhão da ADS muito boa, trazendo com isso um prestigio ao clube, á cidade e a modalidade que gostamos.

PLR: É sabido que o Pavilhão da Sanjoanense costuma estar cheio nos jogos em casa. Foi fundamental esse apoio? Qual a sensação de jogar num ambiente assim?
VP: “Juntos somos mais fortes”, foi o slogan lançado em 2011/12 quando iniciamos este projeto, não poderia ter encaixado melhor. O apoio deste público é fundamental, decisivo para os resultados obtidos. Já não tinha duvidas que o hóquei como desporto coletivo que é, vale muito pela união e esforço de um grupo de trabalho, quando a esse grupo de trabalho se começa a juntar um público como o nosso é fantástico, assim somos capazes de superar as dificuldades que todos sabemos que o clube tem. Os nossos adeptos têm consciência que da nossa realidade, das dificuldades e das condições, mas eles são portadores de uma vitamina fantástica. O nosso público andou alheado um pouco da modalidade, mas tem um gosto enorme por ela, conseguimos despertar isso, em S. João da Madeira as pessoas gostam e percebem de hóquei, sendo que uma grande parte da equipa é natural da cidade isso faz com que tenha de existir ainda mais concentração e rigor sendo que até as ligeiras distrações são logo apontadas e debatidas, o que nos obrigada a dar sempre o nosso melhor. Os adeptos sabem que não somos os melhores mas querem que o grupo dê o seu melhor, pois eles também tem provado que são dos melhores adeptos que a modalidade tem. É fantástico e por vezes emotivo jogar, treinar assim no clube do coração.

PLR: A passagem da 2.ª para a 1.ª divisão é sempre difícil. Muitas são as equipas que sobem e no ano a seguir, ou dois anos depois acabam por voltar a descer. O que acha que será necessário para a ADS cimentar como equipa da 1.ª divisão?
VP: No final da época passada, tínhamos terminado um projeto de subida bem sucedido, alguns perguntavam qual era o novo projeto da ADS, quando assumi o compromisso de treinar a ADS esta época disse desde o inico que esta época não podíamos entrar em projetos, mas sim definir um objetivo lógico, ficar na 1.ª divisão. Foi assim “JUNTOS POR UM OBJETIVO” que começamos, foi importante acreditar e trabalhar, trabalhar muito. Não foi fácil, pois o número de equipas esta época era somente de 14 equipas, essa redução fez com que o campeonato ficasse mais competitivo, mas também decidido em pequenos detalhes, as equipas que estavam na primeira divisão eram equipas já habituadas á muitos anos a estas andanças, com mecanismos e estruturas solidas. Após essa análise restava um lugar, o 11.º lugar, aquele que por direito conquistamos, por coincidência foi o lugar na época passada da equipa que nos defrontou no play-out e que desceu.
Agora que assegurada a manutenção, objetivo cumprido, o clube, os diretores tem uma noção mais real do que é a primeira divisão, dados concretos que devem servir para preparar um projeto de 2/3 anos que consolide a Sanjoanense numa 1.ª divisão. Quer pela força, pelo trabalho desenvolvido, pela massa associativa e adeptos, o clube tem mostrado que merece estar numa 1.ª divisão. Será obviamente necessário reforçar todo o grupo de trabalho.

PLR: Quais os objetivos para a próxima temporada?
VP: Pelo que já disse anteriormente, o clube não tem outra opção que não a luta pela manutenção. Não podemos nunca esquecer a realidade do clube e as suas “ainda” dificuldades. No meu entender, deverá preparar um projeto mais alicerçado com toda a sua estrutura, reforçar o grupo de modo a continuar a permanecer entre os grandes da modalidade, se assim for o clube reunirá condições para a manutenção de preferência sem sofrer até ao final.

PLR: Como se define como treinador?
VP: Este Vítor Pereira, é um treinador de trabalho, dou o meu melhor e tento sempre cumprir, acima de tudo cabeça levantada. Gosto de planear as épocas, tento ser organizado e rigoroso sendo muito frontal com o dia-a-dia, no entanto estou sempre pronto para ouvir o grupo de forma a encontrar e ajustar soluções. Tive vários treinadores, alguns marcaram-me muito pela positiva, tento retirar daí alguns detalhes para crescer e melhorar o meu trabalho, após a minha retirada de jogador, nestes últimos 5 anos de treinador sénior, fui algumas vezes ter com esses treinadores para limar detalhes. A alguns deles devo também um pouco aquilo que sou como treinador. O respeito perante o próximo, a família faz com que, quando entre num projeto entro com tudo, com o coração sempre a 200, vivo muito o momento e às vezes sofro com isso. Aprendi a não me preocupar muito com o ruído á minha volta, gosto de estar focado no objetivo estabelecido . Sinto que sou assim no desporto e na vida, um dia de cada vez com um sorriso, sabe bem.

PLR: Irá continuar na próxima temporada a orientar a equipa da ADS?
Estes últimos anos como treinador da AD Sanjoanense foram muito desgastantes, pelo projeto, pelo objetivo, pelas dificuldades internas. Treinar a equipa da cidade onde trabalho, onde faço 90% do dia a dia, onde vivo, onde os meus filhos andam na escola, tudo isso faz com que a pressão em determinados momentos seja enorme. Felizmente tenho uma família que me tem apoiado e se tem sacrificado, assim como também os colaboradores da empresa que faço a gestão. A decisão de orientar a equipa da ADS, neste preciso momento ainda não está assegurada. Admito que gostava de dar continuidade, mas pelas razões que apontei antes, é preciso primeiro reunir as condições mínimas para que o Vítor Pereira continue. Penso que esta direção sabe e compreende a minha posição e que as coisas se irão resolver.

PLR: Que mensagem deixa a todos aqueles que vos apoiaram durante a temporada?
VP: Estaria aqui um dia a falar sobre isso, os momentos de emoção que vivi ao longo destas épocas na ADS, o apoio que tive, o carinho que senti dos adeptos, sempre em crescendo, foi fantástico. Sinto-me treinador de um clube “dos grandes” do hóquei em patins, pois temos uma massa adepta fantástica. As vitórias na sanjoanense são de uma equipa, de um clube, de uma cidade, da cidade do trabalho, as vitórias são de todos que acreditaram, de todos que apoiaram, OBRIGADO AD Sanjoanense, Sanjoanenses, Força negra, Adeptos, simpatizantes crentes e não crentes, está confirmado “JUNTOS SOMOS MAIS FORTES”. Estarei sempre convosco.
Não queria deixar escapar a oportunidade para enaltecer os Jogadores Briosos que durante este período comigo privaram na modalidade. Foram tempos difíceis, tempos de luta, de muitos sentimentos. O meu respeito a todos que neste anos mais diretamente trabalharam comigo alguns que por diversos motivos se foram ausentando, por motivos profissionais, por motivos desportivos, pessoais etc., o meu obrigado por em algum momento terem acreditado e me ajudado a crescer.
Uma palavra aqueles que acreditaram no meu trabalho, a todos os dirigentes e estrutura, técnicos, staff, ao meu colega Prof. José Carvalho. Assim como aquele que desde inicio apostou em mim para treinador, que me segurou no cargo nas horas difíceis, aqueles que chamei que não viraram as costas e vieram ajudar, obrigado por acreditarem.
Quero agradecer também à Plurisports pela oportunidade assim como pelo trabalho desenvolvido em prol da modalidade do meu coração.

Foto: Facebook AD Sanjoanense